sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O beijo no Bola Preta


Foram praticamente 365 dias esperando. E finalmente fevereiro chegou outra vez, trazendo o carnaval. Para eles, havia uma tradição: sábado pela manhã, batiam ponto no Cordão do Bola Preta. Há 18 anos a cena se repetia. No meio do bloco mais tradicional do Rio de Janeiro, naquela muvuca de alegria, trocavam um beijo. Um beijo apaixonado. O único que se permitiam dar fora de quatro paredes.

Pra que esconderem do mundo aquele amor? Por muito tempo foi assim. Ninguém sabia. Mas quase todo mundo suspeitava. Estavam sempre juntos, numa amizade sem fim. Onde um ia, lá estava o outro. Quando um chorava, era no ombro do outro que recostava. Quando um sorria, encontrava no sorriso do outro os ecos da felicidade. Nada os separava. E, quer saber, a vida não teria a menor graça se não houvesse esses dois juntos!

O problema é que os hipócritas de plantão não gostavam de vê-los juntos. Casalzinho mais esquisito... Porém, o mais verdadeiro. Eles sempre temperaram a relação com todos os ingredientes que garantem o sucesso de qualquer casamento: companheirismo, fidelidade, amizade, tolerância, admiração mútua, tesão, paixão. E, claro, essa paixão se tornou um amor profundo. Daquele tipo que cria um elo tão forte que nem um raio é capaz de partir. Um amor colado com superbonder pra durar por toda a vida – e além da vida.

Foi então, sob confetes e serpentinas, que eles colaram seus lábios. Sem máscaras. Sem medos. Ninguém reparou, ninguém se importou. Todos ali viram que eles não eram ele + ela. Eram ele + ele. E que problema há nisso? É carnaval!

O Bola Preta chegou ao fim. E com ele chegou ao fim também o que nunca deveria deixar de existir: o respeito a dois seres que se amam tanto, que são exemplo de dignidade a todos que os cercam e conhecem seus segredos. Assim como eles há muitos por aí. Eles, elas... Sempre houve... Já está mais do que na hora de os casais de iguais serem acolhidos. No carnaval, na Páscoa, no Natal... Em todos os dias do ano! Sem paranoias, sem preconceito. Com consideração!

Onde há amor, há valor. E estes dois foliões do Bola Preta têm o maior valor do mundo. Eles têm um ao outro... para sempre.


16 comentários:

sidney ferreira disse...

Lindo! sem palavras.

Marcio Bruno disse...

Fala aninha. Não é um comentário, é apenas para dizer que estou lendo seus texto, mas fazer comentários já é outro papo. Deixo para voce escrever, meus dons são outros. rs.

Beijos para todas,
Márcio

TBrigada disse...

Deve ser difícil ter de viver um amor escondido por pressão da sociedade. Mais difícil ainda deve ser isto que você narrou: apenas trocar um beijo público em um dia em que todos pensam que é brincadeira, sacanagem, zombaria - como se aquele beijo não fosse amor.

Glória Britho disse...

Ai, que lindo, amiga!Inveja dessa pisciana doce, capaz de se debruçar com tanta sensibilidade sobre um assunto delicado e que pinta um beijo com as cores do arco-iris. Danadinha!

Flavia Martelotta disse...

Hoje existe uma consciência mundial quanto à importância da preservação do meio ambiente e dos recursos naturais, todos falam em “ecologicamente correto” ou se preferir a palavra da moda: ""sustentabilidade””....
Assim ,temos a nitida impressão que a sociedade está evoluindo.Tudo mentira!!!O tema homossexualismo ainda é polêmico, apesar das novelas, telejornais, filmes tentarem a todo custo regularizar a questão da união Gay nos dias atuais.
Adoro seus textos.
Um grande bj

Jaqueline B. Ramos disse...

Ana,
Só você para captar e nossos dois maravilhosos amigos para expressarem a beleza do amor entre duas pessoas, não importa de que sexo sejam. Ter a sorte de viver um amor é uma dádiva, coisa de Deus... Não existe nada mais sagrado que isso.
Viva a diversidade, a biodiversidade e a adversidade!
Beijos,
Jaque

Perla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Perla Jordani disse...

Aninha, tô bege, estasiada com suas palavras, que deslizam com tamanha sensibilidade e delicadeza. Emocionante...

Fabio Bastos disse...

Ana
Apesar de não compactuar com a empogação desse beijo, seu texto é ótimo, com um final surpreendente.
Dou nota 10 para sua crônica carnavalesca.
Bjs
Fabio

Anônimo disse...

Olá Prima! :) Como vai isso ? Como foi esse Carnaval no Rio. Cá vimos a 'festança' pelas noticias !!

O texto é muito bonito.. E dá que pensar..
Livre de preconceitos que limitam a sociedade.
O respeito e o amor não escolhem sexos..
E cada um sabe de si,e Deus sabe de todos ;)

Sabes.. á pouco tempo o casamento Gay foi aprovado em Portugal.
Causou polemica.. mas o assunto acalmou.

Cada um tem direito de ser como é!


Joana Pena

Fernanda disse...

Oi, Ana! Muito lindo, nota mil! Beijos, Fernanda

Flávia Côrtes disse...

Amei, Ana! Surpreendente, delicado, lindo!
Uma boa história de amor sempre encanta a todos. Os preconceituosos podem torcer o nariz, mas esses a gente ignora. rsss
Beijos

Maria Teresa disse...

É seu aniversário e sou eu a ganhar o presente!
Obrigada pelo belíssimo texto!
Beijão,
Maria Teresa

Luciano disse...

É tão bom ter uma escitora como você. Quando se acha que está tudo perdido, vem você com essa bomba contra o preconceito.
Te amo mais ainda!

Luciano disse...

É tão bom ter uma escitora como você. Quando se acha que está tudo perdido, vem você com essa bomba contra o preconceito.
Te amo mais ainda!

Gabi disse...

Aninha, chegando de viagem e lendo textos + antigos (na verdade, uma boa crônica é atemporal, certo?), encontro um relato carnavalesco totalmente diferente! Que delícia! Sou 100% a favor da liberdade de amar e ser amado, de expressar esta coisa tão rara e linda (meu Deus, ai de mim se não pudesse beijar meu marido em público!), sejam 2 eles, dois elas, dois idosos... Complicado mesmo acho essa beijação sem foco da adolescência "pansexual" (daqui a pouco vc estará tendo esta conversa com suas meninas, não?)

Obrigada pela linda crônica, bjs!
Gabi.