Crônicas, contos, riscos e rabiscos. Todos feitos com amor e prazer (ops, essas duas coisas nem sempre andam juntas, né? Mas aqui sim!) pela jornalista e escritora Ana Lúcia Prôa. E lembre-se: BLOG SEM COMENTÁRIOS, BLOG TRISTE. FAÇA UMA BLOGUEIRA FELIZ! DEIXE SEU COMENTÁRIO!
Como todas as noites daquele verão tórrido, ela deitou para dormir com a janela da varanda completamente aberta e com as cortinas escancaradas, pouco se importando se despertaria junto do sol. A cama de casal estava vazia. Como vinha sempre acontecendo, apesar de ter um companheiro. Aconchegou-se nos travesseiros, passando a perna sobre o mais alto de todos. Parecia um corpo masculino. Mas não era. Do andar alto onde morava, conseguia ver o céu. E as estrelas. As noites quentes andavam muito estreladas.
Era incapaz de fechar os olhos sem antes admirá-las. As estrelas... Como era mágico morar na cidade grande e poder vê-las da janela do quarto... Eram momentos de reflexão pré-sono. Olhava aqueles brilhinhos e pensava no quanto sua vida vinha brilhando, ou não. Às vezes pensava nele. Às vezes pensava no outro. Alguém que fantasiava, mas não concretizava. Nessa noite, pensava no outro. E foi então que do céu rasgou uma luz. Uma pequena luz que, em poucas frações de segundo, se fez entender. Uma estrela cadente! Uma estrela cadente na cidade grande, numa noite calorenta e incômoda. Um verdadeiro milagre...
E ela fez um pedido. Tinha que ser rápida, ditava a superstição. Eu quero ser feliz com... com... pensa rápido, pensa rápido! ... com meu marido.
Havia pedido o óbvio. Não teve coragem de formular seu desejo mais íntimo. Aquele desejo que ninguém precisava saber. Só a estrela. Seria um segredo entre as duas e se a estrela quisesse realizar... ah, isso seria problema dela.
Por que agira assim? Por que havia preferido a segurança do matrimônio às terras trêmulas de uma nova paixão? Ainda que fugidia, ainda que apenas para sentir o seu sabor.
Talvez tenha acreditado que a estrela pudesse ler sua alma e fazer uma louca simbiose entre o que ela sente por ele e o que sente pelo outro. Trazer a paixão para dentro da estabilidade conjugal. Causar um terremoto seguido de tsunami pra sacudir aquele casamento e lhe jogar um balde de água fria. Desperta, brasa adormecida. Você ainda está aí.
Talvez... talvez... O fato é que não teve coragem. E agora tinha que se dar por satisfeita.
Ainda assim, sempre ao ir dormir durante as noites quentes que lhe restavam daquele verão, ficava de olhos bem abertos. Poderia ser que outra estrela cadente viesse lhe conceder um desejo. Haveria de ser mais corajosa.
Num domingo comum, chego em casa no final do dia após um churrasco com a família. Tomo um banho pra tirar aquela atmosfera carregada de fumaça de carne com carvão e pra banir de vez os efeitos etílicos de algumas latinhas de Skol. Mal vesti uma roupa, sento confortavelmente na minha cama com meu laptop. Ô vício danado! Já fazia muitas horas que eu não checava meus e-mails ou dava uma twittada... Daqui a pouco teria delirium tremens. Mas a tremedeira aconteceu mesmo após eu injetar a Internet na minha veia. Na minha caixa postal, estava: novo comentário em seu blog feito por... Thalita Rebouças!!!
Como assim???????? Custei a acreditar. Será que o efeito Skol não tinha passado? A escritora ícone dos adolescentes havia lido meu blog??? Só podia ser um perfil falso. Li o que a suposta Thalita havia escrito: “Adorei seu blog. Continue escrevendo e sonhando e, acima de tudo, acreditando. Obrigada por mencionar meu nome de forma tão carinhosa no seu blog. Vou visitar mais vezes. Beijo enorme, Thalita Rebouças.” Apesar de fazer sentido porque eu, realmente, havia feito um post no ano passado sobre a Bienal e citei o sucesso da moça, ainda duvidava da veracidade da mensagem. Cliquei no nome que havia feito o comentário e fui encaminhada para uma página que trazia os dados da escritora e conduzia para o seu blog. Meu sangue começou a esquentar. Cliquei no link para o blog... ERA ELA MESMO!!!! O sangue explodiu dentro do meu corpo e eu comecei a pular de alegria.
Gritava: putaqueopariu, putaqueopariu, putaqueopariu!!! Meu marido e minhas filhas me olhavam sem entender nada. Minha filha caçula chiou: “Para de falar palavrão, mãe!” Não conseguia! Estava radiante! Mas quem é Thalita Rebouças, eles perguntavam. É a autora daqueles livros que vocês sempre falam que querem ler. Um tal de fala sério, mãe, fala sério, pai... “E Fala sério, amiga”, lembrou minha caçulinha! Isso, isso!!!! FALA SÉRIOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!
Meu marido ainda fazia cara de não entender nada. A ficha já tinha caído pras minhas filhas e elas ficaram felizes e rindo da minha explosão quase juvenil. Falei pra ele – que é fissurado em veleiros – que o fato de Thalita Rebouças ler e comentar no meu blog seria a mesma coisa que Lars Grael virar pra ele e dizer: “Pô, você veleja bem, cara!” Aí meu marido compreendeu...
Difícil entender a mão invisível que fez meu blog chegar ao conhecimento de Thalita. Deve ter sido o Santo Google... O fato é que meu blog anda superdesvitalizado porque eu mesma, como escritora, ando sem energia. Mas acho que deve realmente existir algo maior – e não estou me referindo ao Google – que fez com que esta escritora tivesse tido o ímpeto tão especial de escrever algumas palavras de incentivo para mim. Palavras que me fizeram refletir que um sonho nunca deve ser esquecido. E que me fizeram lembrar que eu tenho um talento a ser usado... sempre...
O despertador tocou na minha mente: ACORDA, MULHER!!!!!!!!!
Uaaahhhhhhhhhh... Bocejei... E como a bela adormecida do bosque, desperto de um longo sono que havia congelado minha inspiração...
Obrigada, Thalita, por ter me dado o “beijo” que eu precisava para despertar.
Ela olhava o relógio a cada minuto. A hora passava muito lentamente. Era mais uma viagem a trabalho e ela estava a postos numa esquina de Belo Horizonte, esperando os ponteiros chegarem às 14 horas para poder tocar na casa do cliente. Antecipar a visita seria deselegante. O jeito era aguardar...
Parou numa esquina, a poucos metros do prédio aonde iria. Recostou na murada de uma casa antiga – que destoava dos prédios modernos daquele bairro chique – e acomodou as nádegas num banco improvisado formado entre o muro e a grade. Começou a reparar na vida ao seu redor. Estava num cruzamento entre duas ruas muito bonitas e arborizadas. Viu por ali desfilarem domésticas passeando com minicães da moda, quarentonas saradas aparentando vinte anos e alguns carros com design arrojado. Mas naquela esquina, por dentro dela, não havia beleza nem modernidade.
Há duas semanas, ela havia sofrido um baque emocional muito forte. Uma perda familiar. Mas uma perda que se mantinha viva, respirando. Por trás das grades. Não há nada a fazer quando alguém que se ama segue um caminho torto. A não ser derramar lágrimas de dor e tentar retomar o caminho reto, ainda que a passos trôpegos. Era o que ela tentava fazer agora. Retomar as viagens a trabalho, seguir sua rotina. Mas ali, parada naquela esquina, foi obrigada a ficar vários minutos em silêncio consigo mesma. Inevitável a dor emergir, como a comida em refluxo, queimando a garganta e deixando um gosto extremamente ácido na boca.
Suspirou. Respirou fundo. Olhou para o chão. De repente, teve vontade de olhar para o céu. Os prédios altos serviam como moldura para uma fresta de céu em forma de cruz. Engraçado... – ela observou. Um lado estava bem azul. O outro ostentava uma nuvem cinza bem carregada, que choraria a qualquer momento – tal como ela. Quem dominaria aquela paisagem: a luz do céu claro ou a tristeza plúmbea? Pensou: “Meu Deus, faça com que minha vida volte a ser azul como vejo parte deste céu. Afasta de mim, Pai, essas nuvens pesadas que insistem em me dominar.”
Suspirou novamente. Respirou fundo outra vez. Olhou para o relógio: 13h59. Desacoplou-se da murada e foi andando lentamente para o prédio-destino. Ao atravessar a rua estreita, sentiu subitamente um perfume muito conhecido. O de seu pai. Quantas vezes, antes de ele morrer, ela o presenteara com aquela fragrância... Olhou para os lados e não havia ninguém por perto que pudesse estar usando aquele perfume. Ninguém. De repente, um cheiro de flores invadiu o ar ao seu redor, formando uma atmosfera de aroma indescritível. Olhou para as árvores, olhou para os canteiros, olhou para os prédios daquele pequeno trecho em que caminhava. Não havia flor em canto algum.
Sentiu-se amparada. Sentiu-se ouvida. Naquela esquina, olhou para o céu e conversou com Deus. E Ele, por meio dos aromas, a respondia: “Estou com você, minha filha. As nuvens cinzas irão passar. Mesmo enquanto ainda estão com você, também Eu sigo ao teu lado.”
Tocou no interfone do prédio chique de Belo Horizonte às 14 em ponto. Seguiu trabalhando, ainda um pouco pesada. Mas aprumou-se para a vida. Entendeu que, na batalha entre o azul e o cinza, o azul haveria de ganhar.
Eu não queria ir. Juro que não queria! Mas, ao ler no jornal pela manhã que um certo estande estava recebendo contos dos visitantes pra publicar os melhores em um livro, fiquei tentada. Os planos eram ir à praia com a família. Domingão de sol tipicamente carioca. Pensei em deixar essa história de conto pra lá e cheguei até a botar o biquine. Só que, quando todos já estavam prontos, me deu a louca: “Não quero mais ir à praia. Vou pra Bienal!” Iria só até o tal estande do concurso de contos e, de lá, daria meia-volta pra casa. Nada contra a Bienal (amo livros, todos sabem), mas tudo contra muvuca, ainda mais num dia de domingo. Programinha de índio...
Ainda de olhos esbugalhados por minha brusca mudança de rumo, meu marido me desembarcou em frente ao portão D do Riocentro e seguiu pra Reserva com nossas filhas e um bolsa térmica cheia de Skol. Deixei isso tudo pra trás em troca da Bienal... Comecei a caminhar rumo ao portão, quando fui avisada por seguranças pouco simpáticos: entrada de pedestres só pelo portão H. Faltavam, portanto, o E, o F e o G. Cada um a quilômetros de distância do outro. Não perdi a linha. Aproveitaria pra fazer o meu footing do dia. Do alto de minhas sandálias de salto alto anabela, sob um sol escaldante, caminhei pela ciclovia no entorno do Riocentro achando que o portão H não existia, fazia parte apenas de um conto de fadas. Mas lá cheguei e, em frente a ele, nada de carruagens. Apenas vários ônibus, de onde descia o povão. E eu fazia parte do povão!
Andei mais um bocado até chegar à fila pra comprar meu ingresso. Nossa, o que era aquilo? Sabe fila única das Lojas Americanas, que vai serpenteando sem parar em meio a guloseimas e outros produtos pra compra por impulso? Mil vezes pior! E com o agravante de não ter nenhum docinho pelo caminho pra aliviar aquela depressão... Bem, até que o fim daquele martírio chegou rápido. Não fosse o fato de, ao final dele, eu ainda ter que ir pra outra fila diante de um dos vários guichês. O que não se faz por amor aos livros?
Ao entrar na Bienal, fiquei aliviada ao ver que aquela multidão se dispersava bem ao longo das largas alamedas entre os estandes. E logo de cara vi um grande mapa no qual procurei onde ficava a tal editora. Eu estava no pavilhão laranja. Era no verde. O último de todos... Lá fui eu, decidida a tomar uma única reta pra não perder tempo. Caminho suficiente pra presenciar algumas cenas bizarras, como uma fila gigantesca repleta de mulheres na faixa dos 20 anos – eu disse 20 anos! –, todas usando uma coroa de princesa. Efeito Meg Cabot! Só poderia ser pra assisti-la...
Continuei minha peregrinação. Os estandes estavam bonitos, mas eu não tinha vontade de parar em nenhum. Mas o da Livraria Saraiva me chocou. LOTADO! Daí vi que a camisa dos vendedores já anunciava que TODOS os livros ali estavam com desconto. Bem, sinceramente, prefiro comprar pela Internet, com a ajuda do Bondfaro, do que me acotovelar em busca de 10% a menos no preço do livro.
Segui adiante e um pequenino estande todo dark chamou minha atenção: editora Intrínseca e seus livros de vampiros teen... Também lotado! Cheio de adolescentes tirando fotos na frente das paredes revestidas pelas capas dos livros de Stephenie Meyer, como se ali estivesse o próprio Robert Pattinson. Fenômeno interessante... Vi também a maior palavra-cruzada do mundo no estande da Ediouro e quase fui lá dar minha contribuição. Mas estava obstinada a seguir meu caminho sem cair em tentações.
Até que elevei meu campo de visão e me deparei com um grande espaço privê flutuando sobre os estandes com a seguinte inscrição: SALA DOS AUTORES. Um frio subiu pela minha espinha. Será que algum dia eu teria a oportunidade de adentrar esse espaço vip? OK, chegou a hora de eu contar um segredinho pra vocês: NÃO GOSTO DE FEIRAS DE LIVROS, NÃO GOSTO DE BIENAL! Fico mal-humorada como o Scrooge, sentindo-me assombrada pelos fantasmas das bienais passadas: por que não tem nenhum livro meu ali naquelas prateleiras? Tá bom, contei meu ponto fraco. Sou uma escritora com dor-de-cotovelo. Mas ainda uma escritora e, por isso, continuava com meu conto debaixo do braço rumo ao estande da tal editora.
Finalmente cheguei ao pavilhão verde. O meu estande-alvo era bem ao lado da Floresta de Livros, onde as crianças poderiam ver árvores falantes e outras cositas más. De perto, achei tão pobre... A mídia parecia mostrar algo mais majestoso. Mas, tudo bem, vamos deixar as coisas majestosas pra Meg Cabot... Ufa, encontrei o estande almejado. Entreguei meu conto. Deu tudo certo. Hora de tomar o longo caminho de volta. Segui pela mesma alameda principal – meus pezinhos não aguentariam ziguezaguear por nem mais uma quadra. E, agora, confissão número dois: sucumbi diante de um estande de livros infantis, deixando lá 43 reais em troca de nove livros de boa qualidade pras minhas filhas. NOVE LIVROS POR 43 REAIS. Magias da Bienal...
No trajeto de volta, algum fenômeno deve ter acontecido. Eu caminhava contra uma horda de gente que não havia antes. Meu Deus, a hora do almoço tinha passado e todos resolveram ir pra Bienal! Socorro, me tirem daqui! Parecia a rua da Alfândega na véspera do Natal. Me senti como um salmão nadando contra a correnteza pra desovar. Num corredor ao lado, vi outra enorme fila de adolescentes. Aproveitei pra sair daquela hola humana e fui ver quem era o autor que havia conseguido tamanha proeza. No caminho, ouvi um rapazote dizer pra outro:
“Pô, essa Thalita Rebouças é boa mesmo, hein?” Senti que eles não estavam comentando sobre os dotes literários da autora. Cheguei bem perto e... fala sério, Thalita! Você realmente é uma gata e uma sortuda! Autora pop star no Brasil é raridade. Que venham muitos outros e outras! (E que eu seja uma delas, haha, sonhar não custa!)
Agora faltava pouco, bem pouco pra eu sair daquela situação constrangedora que é Bienal em dia de domingo. Avistei novamente o pavilhão laranja e um táxi amarelinho me esperando. Peguei um tremendo engarrafamento pra voltar, mas tudo bem: estava sentadinha num banco macio, ar refrigerado congelante, folheando os livrinhos que havia comprado e com o coração cheio de esperança de que meu conto será selecionado. Se não for, tudo bem. Valeu pela experiência e pelo fato de a Bienal ter me impulsionado a quebrar o jejum e voltar a escrever no meu blog.
BLOG QUERIDO, ESTAVA COM SAUDADES DE VOCÊ!!!!!!
Momento de reflexão – Se a Bienal consegue reunir tanta gente, por que o mercado editorial no Brasil é tão sofrido?
O telefone tocou e, poucos segundos depois, o chão se abriu sob meus pés. Em seguida, arrepios e mais arrepios percorreram o meu corpo. Era como se ela estivesse ali ao meu lado, me amparando no instante em que eu recebia a notícia. O choro não veio na hora. O choque foi tamanho que estancou minhas lágrimas. O que você faria se descobrisse que uma grande amiga sua, parceira de tantos momentos, se despede da vida aos 30 e poucos anos? Sem dar nenhum sinal de que isso estava prestes a acontecer, para que você se preparasse... O que você faria se visse os sonhos de alguém que você ama muito serem interrompidos por conta de um coágulo que migra pelas suas veias até entupir sua respiração? Assim, do nada... Há um ano tive que enfrentar essa situação e não foi nada agradável. Minha amiga Martha Lavenère – uma das pessoas mais doces, prestativas, engraçadas, solidárias, companheiras, agregadoras que eu já conheci... – fez a passagem e nos deixou aqui, boquiabertos. Tenho certeza de que ela, em sã consciência, jamais planejaria fazer uma coisa dessas com seus amigos. Logo ela, que movia céus e terras para nos ver sempre felizes. Não, esse não foi um plano da Marthinha. Foi um plano de Deus. E, quanto a isso, só temos que acatar os seus desígnios e saber que, se aconteceu, é porque foi o melhor para ela dentro de um contexto que está muito longe da nossa compreensão. Ainda assim, foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Mas, para sofrer menos, fiz o contrário do que Vinícius diz em seu poema. Do pranto, fiz o riso. Não choro mais, apenas sorrio. Cada vez que penso nela, lembro dos bons momentos. Chego a dar gargalhadas lembrando das nossas bobeiras juntas. E quando me sinto desesperançada, me recordo de suas frases de incentivo me valorizando, me fazendo enxergar o meu verdadeiro potencial. Às vezes sonho com a Marthinha... O último foi na noite do meu aniversário, na semana passada. Virei-me para ela e disse: “Você não está me devendo nada, não?” E ela, então, me dava um grande abraço: “Claro! Feliz aniversário!” Hoje, amiga, sou eu quem te deseja feliz aniversário. Sim, porque acredito que, agora, dia 6 de março é o dia do seu renascimento. Você renasceu para o mundo espiritual, que, a meu ver, é o nosso lugar de origem e de destino. E, quando você voltou praí, deve ter sido recebida em festa, por conta do tanto de coisa boa que fez aqui nos seus poucos anos de vida. Sabe, amiga, talvez você tenha até se revoltado por ter ido tão cedo. Mas, veja bem, num dos últimos e-mails que nós trocamos, você se queixou de que não estava fazendo todo o bem pelos outros quanto gostaria de fazer. Ora bolas, Martha! Claro que estava! Senão, você ainda estaria aqui com a gente. Sua missão na Terra havia chegado ao fim. Uma missão bem-sucedida, com certeza! Bom é saber que você continua ajudando a todos nós daí mesmo, onde se encontra, e ainda com mais força! Afinal, pertinho de Deus fica mais fácil pedir pela gente, não é? Apenas te peço que não se preocupe excessivamente com seus amigos e amores que ficaram... Nós aqui vamos tocando nossas vidinhas, enfrentando nossos desafios, curtindo nossas alegrias e aprendendo com nossas tristezas e decepções. Quanto a você, bela, cuide-se bem por aí. Lembre-se do seu velho ditado: tudo flui, tudo flui, tudo flui... Para nós, há um ano, tudo está fluindo...
Beijos com amor, minha querida! Nunca se esqueça que o amor não morre nunca e permanece nos unindo!
PS: Sua afilhada Marie te manda um beijo, um miado e uma lambida!
Era apenas uma foto. Em preto e branco. Amarelada. Beiradas gastas pelo tempo, passada de mão em mão. Não havia álbum luxuoso para guardá-la. Nem álbum simples. Ficava escondida entre as páginas de um velho livro. Nela, duas crianças. Um bebê gordinho, lindo. Mas não vestia roupas fofas como qualquer bebê. Sequer fraldas tinha, muito menos cueiro. Bumbum sentado direto num chão de terra batida. No rosto, um grande sorriso alheio a tudo.
Ao lado dele, um menino de uns três anos. Com shortinho de malha simples e uma camisa na altura do umbigo, nitidamente rota. Já devia ter passado por muitos outros corpos de criança antes de chegar àquele. Estava de pé – pés no chão –, ao lado do irmãozinho como um guardião. Menino bonito! Cabelos alvos lisos, perninhas ligeiramente tortas... Seus lábios não sorriam. Seus olhos falavam por ele. Eram fundos, escuros. Escondiam ali segredos que só uma infância difícil pode saber. Havia um ar de maturidade, num corpinho de pouco mais de um metro.
E lá estava ela com aquela foto nas mãos. Mãos trêmulas. Uma lágrima rolou e quase caiu sobre o papel amarelado. Numa manobra rápida, ela evitou estragar ainda mais a envelhecida fotografia. Passou os dedos sobre o rosto para estancar qualquer outra emoção fortuita que ousasse sair. Sentiu sua pele tão amarrotada quanto aquela foto. Que passado era aquele, tão distante, que abrigava duas belas crianças numa pobreza tão doída?
Era o passado dela. De uma mãe que deu à luz não dois, mas sete filhos. Apenas os meninos mais novos haviam sido clicados por um vizinho, que depois lhe ofertou o fragmento daquele momento cristalizado em papel. E ela o guardava como relíquia protegida entre as páginas daquele livro sagrado, que permanecia sobre sua penteadeira em meio a alguns frascos de perfume e uma caixa com poucas jóias. Ela não era muito de jóias. Suas jóias mais preciosas estavam na sala, à sua espera.
Fechou o livro, olhou-se no espelho, retocou o batom cor de boca, ajeitou os fios brancos e levantou-se. De pé, passou as mãos sobre o corpo para assentar ainda mais o vestido de corte simples, mas elegante, que usava. Aquele era um dia especial e queria se sentir bem. Oitenta anos fazia... E a foto amarelada já devia acompanhá-la há quase sessenta. Por isso, não poderia ir para a sala encontrar seus convidados sem antes olhar a velha companheira que não a deixava esquecer quem ela era. Quem ela havia sido.
Mulher de vida dura, mulher batalhadora. Criou seus filhos praticamente sozinha, porque era como se companheiro não tivesse. Até que, um dia, realmente não o teve mais. Foi embora com outra. Pouca diferença fez. Trabalhava o dia inteiro, à noite ia à escola tentar aprender a ler, escrever e fazer conta. Conseguiu. Sua escadinha de filhos segurava a barra em casa. O mais velho tomava conta do mais novo, que tomava conta do mais novo, que tomava conta do mais novo... No fundo, todos os irmãos olhavam uns aos outros enquanto ela lutava pelo arroz e feijão de cada dia.
Parentes vendo aquilo quiseram dividir seus filhos. Cada um criaria um. Todos ouviram não como resposta. E ela continuou tocando sua vida. Quando se deu conta, os meninos já eram homens, as meninas já eram mulheres. E mais do que homens e mulheres, eram pessoas com força, garra, determinação. Haviam herdado da mãe. Mergulharam na vida sem medo e prosperaram. Formaram suas próprias famílias e a encheram de netinhos com fraldas descartáveis, roupas de grife e berços de ouro.
E todos a esperavam na sala. Quando ela saiu do quarto da boa casa em que hoje morava, foi recebida pela melodia do Parabéns entoada por corações cheios de amor e gratidão. Seus filhos, sua família! Sua razão de ainda estar viva para saborear mais este momento. Lá para trás ficaram os dias difíceis, em que aniversários, quando comemorados, eram regados a bolo barato e groselha. A mesa agora era farta. Mas isso era o que menos importava naquela hora.
O neto mais velho tratou logo de armar um tripé no meio da sala, no qual atarraxou uma moderna máquina digital. Ajeitou toda a família por trás da grande mesa. Ela ao meio. Apertou um botão, correu para unir-se aos outros e, cinco segundos depois, o flash espocou eternizando aquela cena. Inúmeros sorrisos, inclusive o dela.
Dois dias depois, o neto voltou com um presente nas mãos. Era um porta-retrato com moldura toda trabalhada, um luxo só! Por trás do vidro, a foto da família toda reunida, impressa em papel brilhante. Mas quem brilhava mais eram os olhos dela.
Quando o rapaz se foi, ela correu para o seu quarto, sentou-se na penteadeira e arrancou a foto de dentro do porta-retrato. Pegou seu antigo livro, abriu na página em que se encontrava a foto amarelada e, por trás dessa, acomodou a atual. Antes de fechá-lo, não resistiu e acariciou com seus dedos frágeis a foto de seus pobres meninos. Agora, esboçou um leve sorriso.
Nunca diga dessa água não beberei... E isso posso garantir, com grande conhecimento de causa, a qualquer mulher que ousar dizer que os carecas jamais serão merecedores de seus olhares apaixonados. Tá certo que, no clima de azaração, os olhos da mulherada tendem sempre a pender pro lado de um cabeludo do que de um careca. Mas, se você se permitir conhecer um, cuidado: o cupido pode te flechar.
Passei minha adolescência e início da fase adulta achando todo e qualquer careca um ser desprezível, de outro planeta. Pra mim, coitados, aqueles homens deviam ter um carma muito pesado para terem perdido seus fios tão cedo... Até que, aos 23 anos, conheci o Rômulo. Um cara malhado, gostoso... e com cabelos abaixo do pescoço. Nossa, ele me causou um outro efeito aversivo que sempre tive: falta de tesão por homens de cabelos compridos (e também por homens de terno e de farda, mas esse tema fica pra outro post...). Alguns meses depois, surpresa! Esse (então) amigo passou máquina 1 nos fios. Foi amor à segunda vista! Se Sansão perdeu a força quando Dalila cortou seus cabelos, o efeito contrário aconteceu comigo... Rômulo ganhou força e um lugar no meu coração. O qual ocupa há 15 anos... A partir de então, tudo mudou no meu faro feminino. Descobri um novo universo de masculinidade que não passava necessariamente por uma vasta cabeleira. Bruce Willis foi o primeiro... Gente, o que era (e ainda é) aquele homem????? Adorava vê-lo em todo e qualquer filme, sobretudo naqueles em que ele aparecia sem roupa. Era duro de olhar... 1, 2, 3, 4... Depois veio aquela moda dos que estão começando a perder os fios aderirem à gilete. Nossa, nunca fui tão grata assim a um modismo... O que é Marcello Antony de cabeça raspada? E Malvino Salvador? Uiiiiiiiiiiiiii!!!! Alguém tem um leque aí pra me abanar? Há também os gatos que estão começando a perder os fios, mas não perdem a formosura. Bons exemplos são Nicolas Cage e Jude Law. Continuando por Hollywood, Sean Connery é um exemplo de coroa charmoso. Mas esse, sei não... Andou aparecendo com implante em seus últimos filmes, mostrando que nem ele é chegado num careca. Preconceito puro!
Passando pro esporte, o fato é que, no Brasil, a maioria dos jogadores de futebol carecas são feios pra chuchu. Melhor nem dar nome aos bois, pra evitar qualquer processo de calúnia e difamação contra mim. Na natação, porém, temos um espécime raro: o Xuxa. Gatinho com ‘g’ maiúsculo. Partindo pro futebol internacional, o deus David Beckham já andou raspando os cabelos, embora não seja exatamente um careca. Deu prova de que é bonito de qualquer jeito. E tem um francês... um carequinha chamado Zidane... Ah, esse que se dane!
Para terminar minha singela listagem, vou falar de um amigo, grande blogueiro (http://mordeeassopra.blogspot.com/) que, em seu último post, homenageou as gordinhas (categoria em que me encaixo) e, por isso, está tendo minha homenagem em retorno. Fernando Freire Jr., meu brother, é um ótimo representante da categoria ‘carecas cheios de charme’. E se você ainda não se convenceu de que há muita graça e beleza entre aqueles que vivem bem com suas cabeças brilhantes, tenho mais um argumento. Já reparou que a maioria dos homens que começam a perder os fios correm pra academia? Como lei da compensação, enchem o corpo de músculos e aí, caramba, quem vai querer saber de olhar para a cabeça deles? Quem se importa com a falta de algo em cima, se o restante é pura ‘dilícia’? Eu não me importo. E é por isso que digo: quem tem seu careca gostoso em casa, agarre-o bem! Depois desse post, acho que vai ter muita mulher à solta por aí em busca de um careca pra chamar de seu.
Jornalista, escritora, futura produtora editorial com canudo (pq já me considero uma, mesmo ainda faltando um tempinho para terminar minha segunda habilitação em Comunicação Social). Alguém que ama escrever, que ama ler, que ama observar o cotidiano e as emoções, para, então, transformá-los em histórias que ninguém sabe até onde são verdade, até onde são fruto da minha imaginação. Só eu sei! LEIA MEUS CONTOS E VEJA SE VC CONSEGUE DESCOBRIR...