quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Diga-me que roupa usas que eu te direi quem és

Alex era um típico garotão carioca, acostumado a usar bermuda e camisa de malha. Nos pés, havaianas, claro. Como já estava deixando de ser garotão faz tempo, seu pai deu a prensa: “Vai trabalhar, vagabundo!” E o rapaz, lamentando o fato com seus amigos da praia, ouviu de um deles: “Pô, cara, ontem mesmo meu pai disse que tem uma vaga de auxiliar de escritório na empresa dele. Se quiser, a vaga é sua.”

– Já é!

– Formô! Mas tem um lance... O pessoal lá no trabalho do meu pai só anda na beca. Vai ter que caprichar.

Alex topou o desafio. No dia da entrevista, abriu seu armário e se perdeu no meio de tantos bermudões e camisas de malha. De melhorzinho havia calça jeans e camisa pólo. O jeito foi assaltar o armário do pai e confiscar uma calça preta e uma camisa social azul. Para os pés, afanou um sapato preto estilo Vulcabrás (“Nossa, meu pai nunca ouviu falar em Mr. Cat?” – pensou Alex).

E lá foi ele para o ponto de ônibus, todo engomadinho. Fez sinal. O ônibus parou, mas o motorista não abriu a porta dianteira para que Alex entrasse. Sem dizer nada, gesticulou para que o rapaz entrasse por trás. Alex ficou com aquela cara de que não era com ele. E o motorista insistindo. Até que o rapaz, pensando em se dar bem, aceitou o convite. Dentro do ônibus, ouviu:

– Pô, parceiro, tá querendo dar dinheiro pro dono da empresa por quê? Já não basta a porcaria de salário que a gente recebe?

Alex engoliu em seco. O motorista havia achado que ele também era da classe.

– Podecrê, mano... Valeu merrrmo – era melhor agradecer do que deixar aquela situação ainda mais constrangedora.

Chegando ao prédio onde ficava a empresa do pai de seu amigo, entrou no elevador cheio e ficou posicionado bem ao lado das teclas dos andares. Apertou o 15 e nada de o elevador subir. Poucos segundos depois, um velhinho entrou no elevador e, mesmo também estando perto das teclas, virou-se para Alex e disse:

– Vigésimo-terceiro, por favor.

Alex achou que não haveria mal algum em fazer a gentileza, mas não entendeu o porquê. Se o velhinho também estava próximo do comando, não poderia ele mesmo tocar no andar que queria ir?

E o elevador lá parado, esperando-se sabe o quê.

Mas eis que veio correndo um senhor de uns 50 anos, vestindo calça preta, sapatos Vulcabrás e camisa social azul. Pediu desculpas pela demora e assumiu seu posto no alto banco ao lado do controle dos andares. E só assim o elevador subiu.

Alex já estava pra lá de bolado... Chegando na entrevista, conseguiu a vaga, lógico. Seu pistolão da praia era forte. Ao ir embora, porém, ouviu uma recomendação do seu futuro chefe:

– Olha, rapaz.... No setor que você vai trabalhar, não precisa vir assim vestido de motorista de ônibus, nem de ascensorista. Pode vir de jeans e camisa de malha mesmo.

Alex foi embora p. da vida, preferindo descer as escadas e voltar a pé pra casa.

11 comentários:

Carolina Cunha disse...

iuahiauhaiuahaiuha
Boa!
Meu pai qnd coloca uma blusa azul eu já fico brincando come ele....

Marcio Bruno disse...

Por isso que me visto assim, ja passei por isso quando era adolescente, meu pai sempre dizia pra me vestir melhor, botar uma roupa decente, que bermuda é pra praia e coisa e tal.
Quando preciso coloco ate terno, mas bom mesmo é bermuda e camisa de malha.

Milana disse...

haushaushausha coitado do Alex!
Pelo- ele agora pode trabalhar com roupa de "gente"
kk adorei

TBrigada disse...

por mim, eu usaria bermuda, camisa de malha e chinelo a vida toda hehe

por sinal, tenho que comprar umas blusas polos e sociais, além de uma jeans nova e uma calça social.
hehehehe

Ana Cristina disse...

Mto boa!

já fui confundida com uma vendedora dessas lojas do Saara...rs..
A cor da minha blusa era da cor da blusa do uniforme dela...rs...
Um bjo.
Cris.

Fernando Freire Jr. disse...

Caraca! Já passei por isso duas vezes! Na entrevista de emprego no aeroporto eu tava mais bem vestido que os outros candidatos (com minha gravata italiana da sorte - te conto essa história no e-mail) e nem precisava porque tinha que ser aprovado no curso. E neste que trabalho hoje, tb fui de terno, e o chefe que me recebeu estava de bermuda! O escritorio era na Olegário Maciel, colado na praia...
Mas calça preta com blusa azul eu não visto nem por um par de borboletas!!!
Bjs

Mattosquela disse...

Muito boa Ana!!! haha!

nossa morro de saudade de quando andava de camiseta diáriamente, costas peladas, tatoo à mostra, rasteirinha o tempo todo...

era tão bom poder escolher o que me deixava mais confortável sempre.
Agora deixo isso só para os finais de semana...

ira disse...

Como é bom ser aposentada! Uso azul marinho e branco na AACD e um avental colorido no VIVA! Todos me olham com bons olhos e hoje mesmo fui abençoada na vendinha porque estava usando minha camiseta oficial da AACD que comunica a todos que sou "VOLUNTÁRIA" Já tenho um belo curriculo para assumir trabalhos no plano espiritual

Beijinhos

Glória Britho disse...

Assim também são as roupas menos visíveis que usamos todos os dias. Caras e bocas, sorrisos forçados, atitudes hipócritas. Os psicólogos chamam isso de persona. Não tem jeito, amiguinha, até podemos trocar o jeans por Armani, mas ostentar as nossas verdadeiras faces, ai é que o bicho pega. Você é um exemplo disso. Sempre buscando a transparência, quantas vezes já pagou um alto preço?
Ces't la vie ...

Anônimo disse...

Hahahaha, ficou sensacional Ana!! \o/ Lendo eu na hora lembrei das cenas no famigerado 1135, Castelo-Santa Cruz, e a subida no elevador da Assembléia 10. :D

Bjs,

Aloísio

Ana Lúcia Prôa disse...

Viu, pessoal? Essa história foi uma adaptação do que aconteceu DE VERDADE com meu amigo Aloísio, que comentou acima!

Beijos,

Ana