sábado, 14 de novembro de 2009

Deus numa esquina


Ela olhava o relógio a cada minuto. A hora passava muito lentamente. Era mais uma viagem a trabalho e ela estava a postos numa esquina de Belo Horizonte, esperando os ponteiros chegarem às 14 horas para poder tocar na casa do cliente. Antecipar a visita seria deselegante. O jeito era aguardar...

Parou numa esquina, a poucos metros do prédio aonde iria. Recostou na murada de uma casa antiga – que destoava dos prédios modernos daquele bairro chique – e acomodou as nádegas num banco improvisado formado entre o muro e a grade. Começou a reparar na vida ao seu redor. Estava num cruzamento entre duas ruas muito bonitas e arborizadas. Viu por ali desfilarem domésticas passeando com minicães da moda, quarentonas saradas aparentando vinte anos e alguns carros com design arrojado. Mas naquela esquina, por dentro dela, não havia beleza nem modernidade.

Há duas semanas, ela havia sofrido um baque emocional muito forte. Uma perda familiar. Mas uma perda que se mantinha viva, respirando. Por trás das grades. Não há nada a fazer quando alguém que se ama segue um caminho torto. A não ser derramar lágrimas de dor e tentar retomar o caminho reto, ainda que a passos trôpegos. Era o que ela tentava fazer agora. Retomar as viagens a trabalho, seguir sua rotina. Mas ali, parada naquela esquina, foi obrigada a ficar vários minutos em silêncio consigo mesma. Inevitável a dor emergir, como a comida em refluxo, queimando a garganta e deixando um gosto extremamente ácido na boca.

Suspirou. Respirou fundo. Olhou para o chão. De repente, teve vontade de olhar para o céu. Os prédios altos serviam como moldura para uma fresta de céu em forma de cruz. Engraçado... – ela observou. Um lado estava bem azul. O outro ostentava uma nuvem cinza bem carregada, que choraria a qualquer momento – tal como ela. Quem dominaria aquela paisagem: a luz do céu claro ou a tristeza plúmbea? Pensou: “Meu Deus, faça com que minha vida volte a ser azul como vejo parte deste céu. Afasta de mim, Pai, essas nuvens pesadas que insistem em me dominar.”

Suspirou novamente. Respirou fundo outra vez. Olhou para o relógio: 13h59. Desacoplou-se da murada e foi andando lentamente para o prédio-destino. Ao atravessar a rua estreita, sentiu subitamente um perfume muito conhecido. O de seu pai. Quantas vezes, antes de ele morrer, ela o presenteara com aquela fragrância... Olhou para os lados e não havia ninguém por perto que pudesse estar usando aquele perfume. Ninguém. De repente, um cheiro de flores invadiu o ar ao seu redor, formando uma atmosfera de aroma indescritível. Olhou para as árvores, olhou para os canteiros, olhou para os prédios daquele pequeno trecho em que caminhava. Não havia flor em canto algum.

Sentiu-se amparada. Sentiu-se ouvida. Naquela esquina, olhou para o céu e conversou com Deus. E Ele, por meio dos aromas, a respondia: “Estou com você, minha filha. As nuvens cinzas irão passar. Mesmo enquanto ainda estão com você, também Eu sigo ao teu lado.”

Tocou no interfone do prédio chique de Belo Horizonte às 14 em ponto. Seguiu trabalhando, ainda um pouco pesada. Mas aprumou-se para a vida. Entendeu que, na batalha entre o azul e o cinza, o azul haveria de ganhar.

11 comentários:

Thiago Brigada disse...

"Deus está nos detalhes" foi uma frase que li uma vez, precisamente em 1999. Uma frase que me marcou. Naquele ano perdi meu avô querido e no dia de sua morte, senti uma sensação diferente antes de saber que ele já havia ido dormir com Deus. Lá estava o detalhe. Também naquele ano estive completamente apaixonado por uma colega de classe. Romântico como era, enviei um buquê de rosas (6 vermelhas e 6 amarelas) para aquela menina e pedi para ser entregue às 14 horas. Ela era religiosa o que lhe valeu no cartão que escrevi a frase "Deus está nos detalhes". Sei que, próximo das 14 horas, senti algo que nunca senti na vida até/desde então: um sentimento que só posso acusar de ser paz. Acredito que foi mais um detalhe. Como também foi o de não ter conseguido conquistar aquela menina - mas conquistei-me naquele ato e naquele amor: a partir dali, tornei-me outra pessoa. Novamente, lá esteve um detalhe.
"Deus está nos detalhes", é o que eu só pude pensar e pensar quando li seu encontro com Ele.

Luciano disse...

Minha flor,
o azul é a cor do céu, cor do mar e uma das cores que eu mais aprecio. Ele sempre vencerá!
Obrigado, por ter escrito a crônica. Me fez pensar muito e trouxe um grande conforto para minha alma triste.

ira disse...

Maravilhoso texto, de grande sensibilidade e principalmente... VERDADE. Especialmente hoje que estou com o coração dolorido e apreensivo a obervar nuvens negras que rondam meus entes queridos, consegui visualizar este AZUL que vc nos promete, se nos apegarmos ao grande Mestre!
Obrigado Ana querida, por nos oferecer este Céu!
Beijos no coração!

patdantas disse...

Achei que a história era ambientada no Rio... Gostei. Deus está em todos os lugares, inclusive nos mais feios, pobres, desfavorecidos. No céu azul ou cinza. Deus está dentro de nós. Saber encontrá-lo é um exercício que devemos fazer todos os dias. Beijos.

Claudia disse...

Realmente Ana, somente quem possui Deus no coração e tem fé poderá desobstruir ou contornar obstáculos, suportar os sofrimentos e entender que tudo tem um único objetivo: o amor...a evolução de todos os homens para que possam estar cada vez mais próximos de Deus. Por amor ou pela dor todos nós chegaremos lá algum dia, uns antes e outros depois, mas todos chegarão.Deus traçou um caminho de amor para que pudéssemos alcançar esta perfeição com muito mais rapidez, mas nós, os homens, fazemos questão de complicar seguindo outro caminho e Deus como Pai bondoso, justo providencia algo que nos redireciona para o caminho certo...

Ana Cristina disse...

Acredito que Deus esteja em "todas as esquinas". Apenas não nos damos conta da sua presença, ou por estar no meio de uma dor, ou pela correria do dia-a-dia. Mas, principalmente nessa hora, é que deveríamos nos plantar na "esquina", acalmar nossos corações e entender que nada acontece por acaso e que, realmente, Deus está nos detalhes...

Um bjo e uma prece.

Fernando Freire Jr. disse...

Saudades de vc e de seus textos aqui... Foi um presente ler este justamete hoje, quando o meu dia estava meio cinzento. Ajudou a me focar no pedacinho de azul que eu mal percebia.
Especial como sempre.
Beijos com saudades.

Gehffd Fhachidh disse...

nao li tudo mas gostei do desenho há observaçao voce adora carecas hein??
do seu novo seguidor g. f.

Thalita Rebouças disse...

Adorei seu blog. Continue escrevendo e sonhando e, acima de tudo, acreditando. Obrigada por mencionar meu nome de forma tão carinhosa no seu blog.
Vou visitar mais vezes.
Beijo enorme,
Thalita Rebouças

selma disse...

Puxa, Ana, que lindo texto! mostra religiosidade sem pieguice.

selma disse...

Lindo text5o! Apresenta religiosidade sem pieguices. Lindo!