segunda-feira, 2 de março de 2009

Fotos da vida

Era apenas uma foto. Em preto e branco. Amarelada. Beiradas gastas pelo tempo, passada de mão em mão. Não havia álbum luxuoso para guardá-la. Nem álbum simples. Ficava escondida entre as páginas de um velho livro. Nela, duas crianças. Um bebê gordinho, lindo. Mas não vestia roupas fofas como qualquer bebê. Sequer fraldas tinha, muito menos cueiro. Bumbum sentado direto num chão de terra batida. No rosto, um grande sorriso alheio a tudo.

Ao lado dele, um menino de uns três anos. Com shortinho de malha simples e uma camisa na altura do umbigo, nitidamente rota. Já devia ter passado por muitos outros corpos de criança antes de chegar àquele. Estava de pé – pés no chão –, ao lado do irmãozinho como um guardião. Menino bonito! Cabelos alvos lisos, perninhas ligeiramente tortas... Seus lábios não sorriam. Seus olhos falavam por ele. Eram fundos, escuros. Escondiam ali segredos que só uma infância difícil pode saber. Havia um ar de maturidade, num corpinho de pouco mais de um metro.

E lá estava ela com aquela foto nas mãos. Mãos trêmulas. Uma lágrima rolou e quase caiu sobre o papel amarelado. Numa manobra rápida, ela evitou estragar ainda mais a envelhecida fotografia. Passou os dedos sobre o rosto para estancar qualquer outra emoção fortuita que ousasse sair. Sentiu sua pele tão amarrotada quanto aquela foto. Que passado era aquele, tão distante, que abrigava duas belas crianças numa pobreza tão doída?

Era o passado dela. De uma mãe que deu à luz não dois, mas sete filhos. Apenas os meninos mais novos haviam sido clicados por um vizinho, que depois lhe ofertou o fragmento daquele momento cristalizado em papel. E ela o guardava como relíquia protegida entre as páginas daquele livro sagrado, que permanecia sobre sua penteadeira em meio a alguns frascos de perfume e uma caixa com poucas jóias. Ela não era muito de jóias. Suas jóias mais preciosas estavam na sala, à sua espera.

Fechou o livro, olhou-se no espelho, retocou o batom cor de boca, ajeitou os fios brancos e levantou-se. De pé, passou as mãos sobre o corpo para assentar ainda mais o vestido de corte simples, mas elegante, que usava. Aquele era um dia especial e queria se sentir bem. Oitenta anos fazia... E a foto amarelada já devia acompanhá-la há quase sessenta. Por isso, não poderia ir para a sala encontrar seus convidados sem antes olhar a velha companheira que não a deixava esquecer quem ela era. Quem ela havia sido.

Mulher de vida dura, mulher batalhadora. Criou seus filhos praticamente sozinha, porque era como se companheiro não tivesse. Até que, um dia, realmente não o teve mais. Foi embora com outra. Pouca diferença fez. Trabalhava o dia inteiro, à noite ia à escola tentar aprender a ler, escrever e fazer conta. Conseguiu. Sua escadinha de filhos segurava a barra em casa. O mais velho tomava conta do mais novo, que tomava conta do mais novo, que tomava conta do mais novo... No fundo, todos os irmãos olhavam uns aos outros enquanto ela lutava pelo arroz e feijão de cada dia.

Parentes vendo aquilo quiseram dividir seus filhos. Cada um criaria um. Todos ouviram não como resposta. E ela continuou tocando sua vida. Quando se deu conta, os meninos já eram homens, as meninas já eram mulheres. E mais do que homens e mulheres, eram pessoas com força, garra, determinação. Haviam herdado da mãe. Mergulharam na vida sem medo e prosperaram. Formaram suas próprias famílias e a encheram de netinhos com fraldas descartáveis, roupas de grife e berços de ouro.

E todos a esperavam na sala. Quando ela saiu do quarto da boa casa em que hoje morava, foi recebida pela melodia do Parabéns entoada por corações cheios de amor e gratidão. Seus filhos, sua família! Sua razão de ainda estar viva para saborear mais este momento. Lá para trás ficaram os dias difíceis, em que aniversários, quando comemorados, eram regados a bolo barato e groselha. A mesa agora era farta. Mas isso era o que menos importava naquela hora.

O neto mais velho tratou logo de armar um tripé no meio da sala, no qual atarraxou uma moderna máquina digital. Ajeitou toda a família por trás da grande mesa. Ela ao meio. Apertou um botão, correu para unir-se aos outros e, cinco segundos depois, o flash espocou eternizando aquela cena. Inúmeros sorrisos, inclusive o dela.

Dois dias depois, o neto voltou com um presente nas mãos. Era um porta-retrato com moldura toda trabalhada, um luxo só! Por trás do vidro, a foto da família toda reunida, impressa em papel brilhante. Mas quem brilhava mais eram os olhos dela.

Quando o rapaz se foi, ela correu para o seu quarto, sentou-se na penteadeira e arrancou a foto de dentro do porta-retrato. Pegou seu antigo livro, abriu na página em que se encontrava a foto amarelada e, por trás dessa, acomodou a atual. Antes de fechá-lo, não resistiu e acariciou com seus dedos frágeis a foto de seus pobres meninos. Agora, esboçou um leve sorriso.

11 comentários:

maesolteirapos35 disse...

AI,ANA,QUE LINDO ESSE TEXTO SEU...SABE,MUITAS VEZES ME PEGO TAMBÉM REVISITANDO MINHAS FOTOGRAFIAS,ALGUMAS DE PESSOAS QUE NEM SEI QUEM FORAM,NUM VELHO ALBUM DE MINHA AVÓ,SEM LEGENDAS,QUE TRISTE ISSO....
FOTOGRAFIAS SÃO MARCAS DE MOMENTOS QUE NEM SEMPRE VOLTAM MAIS...AGORA MESMO,SEM SABER QUE ENCONTRARIA UM TEXTO TRATANDO DESSA NOSTALGIA,ENCONTREI UM RELÓGIO(DESSES,DE COZINHA),QUE RECEBI QUANDO AS MENINAS ERAM ALUNINHAS DE UMA PEQUENA CRECHE LÁ NA TIJUCA: MAS QUE SAUDADES ME DEU DAQUELES DIAS DELAS DUAS,TÃO NENÉNS AINDA,AMBAS OLHANDO PRO ALTO, COM CERTEZA NUM ESFORÇO ENORME DE ALGUÉM QUE AS SEGUROU E PULOU NA SUA FRENTE,DE TAL FORMA QUE AS FIZESSE OLHAR PRA CIMA...E AS DUAS DE CAMISETINHA AZUL,BORDADINHA COM A LOGO DA ESCOLINHA...TRATEI DE COLOCAR PILHA E DEIXÁ-LO EM EVIDÊNCIA,POIS AMANHÃ MESMO VOU RECOLOCAR NA PAREDE DO MEU QUARTO,COM MUITO ORGULHO E SAUDOSISMO...JÁ PASSAMOS POR MAIS TRÊS COLÉGIOS DESDE AQUELES DIAS,E NEM SEI SE AINDA TEREI QUE CONTINUAR NESSA BUSCA POR UMA "BOA" EDUCAÇÃO PARA ELAS,EU QUE ME DEDICO A ISSO E VEJO TANTAS COISAS DESFOCADAS,TANTA GENTE QUE "FINGE QUE ENSINA,ENQUANTO OUTROS FINGEM QUE ABSORVEM"...
MAS O FATO É QUE EU NUNCA ME IMPORTEI COM A FASE EM QUE ELAS ESTÃO,POIS SEI QUE A SAUDADE DE OUTROS DIAS É ENORME,PRINCIPALMENTE SE VIVEMOS NOS PROJETANDO NA FASE DA CRIANÇA QUE "ESTÁ POR VIR"...
EU AMO CADA DIA,CADA GESTO,CADA DESCOBERTA E CADA NOVIDADE QUE ELAS ME APRESENTAM,NAQUELES SEUS JEITINHOS INOCENTES,EM BUSCA DE UM CARINHO MEU...SEI QUE VOCÊ COMPREENDE O QUE ESCREVO,PORQUE É MÃE TAMBÉM...
AS FOTOS TÊM ESSE PODER DE ETERNIZAR AS FASES,OS RITOS DE PASSAGEM,AS IMAGENS QUE NOSSO CÉREBRO NEM SEMPRE É CAPAZ DE ARMAZENAR...
OBRIGADA POR REFORÇAR ESSA IDÉIA EM MIM...E POR ME INSPIRAR A ESCREVER,PELA PRIMEIRA VEZ,NUM BLOG...JÁ É UM SINAL DE UM DESEJO DO FUNDO DE MIM,NÃO LHE PARECE?
MUITOS BEIJOS E UMA SEMANA INSPIRADA...E INSPIRADORA!!!
COM CARINHO ...
IZA

Rachel Bassan disse...

Menina, você ARRASOU ! Que iluminada você devia estar quando se inspirou para este texto! De uma delicadeza, de uma profundidade, de uma emoção que passa pelas palavras... certamente não há quem não se emocione com o seu texto.
Ana Proa, você é campeã!
Parabéns, amiga!
Beijos,
Rachel Bassan

Marcio Bruno disse...

A foto funciona como uma maquina do tempo, nos leva de volta ao passado ou nos mostra o futuro e viajar é tudo de bom.

40 Beijos para voce. (nem sei pq escolhi essa quantidade de beijos) hahaha

georgia cabecos disse...

Ana,
não preciso nem dizer que terminei a leitura em lágrimas. Você tem um dom muito especial de tocar o coração dos leitores!
bjs
Geo

georgia cabecos disse...

Ana,
não preciso nem dizer que terminei a leitura em lágrimas. Você tem um dom muito especial de tocar o coração dos leitores!
bjs
Geo

georgia cabecos disse...

Ana,
não preciso nem dizer que terminei a leitura em lágrimas. Você tem um dom muito especial de tocar o coração dos leitores!
bjs
Geo

georgia cabecos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Freire Jr. disse...

Poxa, Ana...
Você tocou em meu ponto fraco. Também terminei o texto chorando porque histórias como esta que envolvem idosos e suas prolíficas vidas me tocam muito fundo, embora nem eu mesmo saiba o porque. Pra você ter uma idéia, eu amo o filme Titanic e sempre me emociono quando o assisto. Mas sabe quando eu choro de soluçar? Justamente quando, no final do filme, a senhora joga a jóia no mar, como um presente ao Jack, seu grande amor. E só de escrever isso já choro de novo!
Que ridículo eu sou!
Um grande presente você me deu nessa manhã corrida de quinta. Parar pra te ler reduziu minha rotação. Estava precisando. Obrigado. Um beijo!

Fabio Bastos disse...

Ana

Em cima de uma foto amarelada vc fez uma história multicolorida.
Seu texto tem vida, emociona e tem a marca registrada de Ana Proa.

Bjs
Fabio

Tati disse...

quanto carinho, hein?

Cláudia Lima disse...

Amiga,
Que lindo!
As vezes me arrependo de não ter fotografado muitos bons momentos da minha vida, com amigos, familia, de lugares que estive.
Eles ficaram apenas na minha memória!
Como é bom poder rever clicks do passado e viajar.....
Bjsssssssss