sexta-feira, 13 de abril de 2007

Atendimento vip

Cheguei no hospital e vi que a situação era preta. Estava lotado! Mas, num up-grade evolutivo do atendimento, eles dispuseram grandes bancos para a população se sentar, os quais funcionavam como verdadeiras filas. Ao invés do tradicional “um passinho à frente, por favor”, o que se via era um arrastar de bundas cada vez que alguém entrava para a sala do médico. Me acomodei no último lugar do banco e logo fui espremida pelo grande número de pessoas que não paravam de chegar. Sinceramente, não sei o que era pior: ficar ali sentada, praticamente sem circulação sangüínea e movimento de braços e pernas, ou me manter em pé para, pelo menos, dar uma esticadinha no corpo.
Minhas crianças ficaram brincando soltas à frente da fila-banco. Até que, muito arrastar de bunda depois, chegou a minha vez de entrar no consultório.
– Vamos lá, gente – convoquei minha filharada.
E eram muitos filhos, que se apertaram dentro da salinha já apertada.
Quando olhei para o médico, mal acreditei. Ele era a cara do Dalton Vigh, da novela das seis. Aquele que faz um empresário cínico que, para todos é um santo, mas em casa mete a porrada na mulher e manda matar Deus e o mundo! Fiquei assustada quando ele bradou, secamente:
– O que elas têm?
Relatei que meus filhos estavam com algum problema de pele. Catapora talvez.
Com a maior cara de nojo, ele nem tocou nas crianças. Apenas as olhou de soslaio e disse para eu passar tais e tais remédios nelas.
– Ô, Doutor, o senhor tá falando muito rápido. Não poderia escrever isso no papel?
Ao me responder entredentes que o papel do hospital havia acabado, ele, mais uma vez com um ar de repugnância, deu um sopro sobre minhas crianças. E, assim como mágica, foi criada sobre elas uma camada finíssima de gaze, na qual ali mesmo ele escreveu a receita. Como se estivesse tirando cola que seca na palma da mão, fui destacando cuidadosamente a receita da pele delas e a coloquei dentro da bolsa. Saí do consultório cabisbaixa com meus filhos, ainda mais depois de ter agradecido ao atendimento e não ter ouvido sequer um “de nada” do doutor com cara de vilão de novela.
Foi então que despertei. Olhei ao redor e vi que estava na minha caminha gostosa, quentinha e confortável. Lembrei-me que só tinha duas filhas e que, graças a Deus, tinha plano de saúde. Se eu precisasse de atendimento médico, bastaria ir ao hospital mais próximo, sem enfrentar filas e sem ser tratada com despeito.
Fiquei vários minutos deitada na cama com a lembrança deste sonho me incomodando. O chato é saber que esse sonho, na verdade, é a mais pura realidade...

Um comentário:

fabio bastos disse...

Ana
Tirei a tarde para ler os blogs dos amigos(as). Foi bom ler o seu, como sempre criativo e bem humorado. Vc está fisicamente ausente da oficina, mas mentalmente presente.
Aquele abraço
Fabio